| Um insólito placar |
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As partidas de futebol, na Porteirinha dos anos 60, não me saem da memória.
O campo velho, perto dos pés de jenipapo e de juá e um pouco além das cercas de vara nos fundos da casa de "seu" Zé Pessoa, foi palco de grandes partidas e de lances pitorescos. Como o campo não era murado e nem sequer possuía alambrado, era ponto de convergência de toda a população da pequena cidade. Afinal, além de ser diversão gratuita, não se tinha mesmo outra coisa para se fazer nas tardes de domingo. - Óia a laranja. Docinha. Num tem "astro" - gritava um menino, com seu carrinho-de-mão cheio da fruta. - Tem ispromenta? - perguntava um potencial cliente. - Tem. Pode ispromentar - respondia solícito o menino, oferecendo a faca, com uma "barriga" invertida na lâmina, gasta de tanto afiar. E os meninos vendedores de laranjas acabavam fornecendo o "arsenal" que tirava o sossego do goleiro do time visitante. As buchas de laranja eram também usadas para demonstrar a insatisfação da torcida com o juiz ladrão. Para se proteger dos "petardos" certeiros, o arbitro, manhosamente, mantinha uma boa distância das margens do campo. Tone de Cabo Velho vendia biscoitos que ele mesmo alardeava ironicamente como muxengos, pois eram, de fato, difíceis de serem comidos. De tão murchos. Os desavisados que se aventuraram a comê-los engasgavam-se à toa, pois o pedaço que teimava descer goela abaixo não se desgrudava do que ficara na boca...E era um tal de cliente levantar os braços com falta de ar e outros dando-lhe sonoros murros nas costas, para se livrar do temível muxengo. Todo domingo era igual. A entrada dos times em campo era bastante diferente: os jogadores adentravam o gramado pela linha divisória, goleiro à frente com a bola e os demais atrás, em fila indiana. Corriam até a parte central e, ali, dividiam-se, um para cada lado, fechando o círculo. Depois, a plenos pulmões, davam o grito de guerra: - Hippi!! - Urra!!! - Hippi!! - Urra!!! E eram aplaudidos pela torcida. Quando o juiz marcava um pênalti, era um Deus-nos-acuda, pois toda a torcida corria para dentro do campo, para ver a cobrança de perto. O juiz ficava bem uns 10 minutos pedindo ao pessoal para deixar livre, pelo menos, a frente do goleiro. - Gente, se o goleiro não estiver enxergando a bola eu não apito. Cooperem...- implorava. Quando o jogador batia o pênalti e fazia o gol era carregado pela torcida. Aí eram mais alguns minutos para comemoração e outros tantos para "evacuar" o campo, com ajuda do pífio contingente policial: um cabo e dois soldados. Este negócio de jogo de 90 minutos de duração era só para inglês ver. Se o juiz fosse descontar as invasões ao campo, o jogo não terminaria, pois a escuridão não deixava. As torcidas do Mackenzie e do Guarany, apelidadas pelos respectivos adversários de "Péla-jegue" e "Sabonete", eram bastante rivais. Pontuavam em cada qual figuras que se destacavam pelo vozeirão, normalmente xingando a torcida contrária. Tião Rádio era notável. Dodó do Riacho, também. Gritavam o tempo todo. Num jogo entre Guará e Barriguda, disputando o Torneio Municipal, aconteceram lances bastante pitorescos, como "lateral" lançado da linha-de-fundo e o folclórico pênalti cobrado por uma melancia. Com uma melancia, sim. Daquelas bem redondinhas e muito parecidas com uma bola de capotão! O jogo estava 1 x 0 para o Guará, quando o zagueiro Clarindo, do time que vencia, botou a mão na bola, dentro da área. O juiz "Dãozinho Quaresma" não teve dúvidas e marcou o pênalti. Um torcedor do Guará, indignado, entrou em campo, "catou" a bola e fugiu em direção ao rio Mosquito, sendo perseguido pelo cabo comandante do destacamento. O torcedor era bom de corrida e o cabo andava meio fora de forma e não o alcançou. Voltou desanimado, sem fôlego e sem a bola. - Não teve jeito pessoal. Sem a bola é melhor acabar o jogo. Já está escurecendo mesmo...- resignou-se o militar. Aí é que os jogadores do Barriguda, aglomerados na pequena área, se revoltaram: - Que num tem jeito que nada. Nós bate este pênite nem que seje com uma melancia! O juiz, atento a tudo e protegido pelos dois soldados, gostou da sugestão e autorizou fosse a penalidade máxima cobrada, utilizando-se da melancia mais parecida com uma bola que pudesse ser encontrada na beira do campo. Afinal, Porteirinha era considerada a Capital da Melancia, naquela época em que os herbicidas ainda não eram usados nas lavouras de algodão. - Tem que ser redondinha! - exigiu o árbitro. Melquíades foi o escolhido pelo técnico do Barriguda para bater o pênalti. - Vá lá, Melquidão, dê um "tijolo" nela - encorajou o técnico Roseno. Melquíades ajeitou a melancia num prosaico montinho de areia, justo na marca da cal, afastou-se uns dez metros, correu em direção da bola, digo, da melancia, deu um saltinho para acertar o passo e pimba! A melancia saiu feito um foguete em direção ao gol, mas o goleiro do Guará, num lance de pura sorte, espalmou-a para o alto e esta espatifou-se no travessão, entrando apenas a metade no gol. Por isso, o juiz não vacilou em sua sentença: considerou apenas meio gol e declarou o Guará vencedor, pelo insólito placar de 1 x ½. Tem muita gente que não acredita, mas é a pura verdade...
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