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Escrito por Angela Sánchez, em 21-05-2008 16:38
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2_ Contemplar a VIDA, os FATOS, os SENTIMENTOS, as COISAS, as PALAVRAS... com atitude de ASSOMBRO, de ESTRANHEZA, e escrever à partir das novas percepções que assim tenhamos de tudo isso.

Tudo que observamos tem uma couraça, uma pele que esconde muito por debaixo.

Observo a árvore, ela é linda, tem corteça, galhos, flores, frutos, mas, pode ser que haja algo a mais na simpleza dessa árvore, tem o cerne da madeira, a rudeza do tronco, as raízes que o unem à terra para que ali permaneça, tem doenças que o atacam, tem uma vida e tem uma morte quando derrubado, será que as árvores choram como nós?

O fato dela permanecer sempre no mesmo lugar, sua chegada nesse lugar quando semente, que voou levada pelo vento, levada pelas abelhas, algum animal que comeu seu fruto e jogou, por não mais prestar, as sementes, uma mão humana que plantou um broto, que cuidou dele, regou, fez planos em-baixo de sua sombra, chorou, riu...

Quais sentimentos me produz quando olho para árvore? Alegria, tristeza, saudade, vontade de não mais ser humana e ser como a árvore? Quero fugir, ficar, dormir? Desprezo sua essência? Por quê? Tenho pena dela, inveja, raiva?

Quais palavras me lembra essa observação? Rigidez, vida, aconchego, comodidade, floresta, natureza, dor, solidão, fortaleça, fraqueza, soberba, grandeza? Me ocorrem palavras novas? Neologismos? Quais? Vale RIGISOBERBIDADE?

Borges adorava inventar palavras, na realidade ele usava palavras aceitas pelo sistema da língua mas que as pessoas não usavam no dia-à-dia, por exemplo em lugar de dizer: FEALDADE, ele escrevia, IMBELEZA (Mas como com tudo temos que ter cuidado)

Vejam o que escreveu Pablo Neruda sobre um tomate, sim!

"Ode a um tomate"

A rua
se encheu de tomates,
meio-dia,
verão,
a luz
se parte
em duas
metades
de tomate,
corre
pelas ruas
o suco...


... Tem
luz própria,
altivez benigna.
Devemos, por desgraça,
assassiná-lo:
afundar
a faca
na sua polpa vivente,
que é uma vermelha
víscera,
um sol
fresco,
profundo,
inesgotável, ...


... o tomate,
astro de terra
estrela
repetida
e fértil,
nos mostra
suas circunvoluções,
seus canais,
a insigne plenitude
e a abundância
sem osso,
sem couraça,
sem escamas nem espinhos,
nos entrega
o presente
de sua cor fogosa
e a totalidade do seu frescor.


Publicado em : Literatura, Dicas para novos autores
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Comentários (1)
Postado em Gemima, em 25-05-2008 01:16, , Membro Registado
Adoro Pablo apesar de ter lido poucos textos dele. 
Esse seu texto é muito bom. 
beijo.
 
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