Com as pálpebras fechadas, ela esconde o que tem de mais bonito: os olhos. Ainda lembro do primeiro dia, quando me apaixonei pelo brilho argentino que irradiavam suas pupilas. Na boca levemente entreaberta, um sussurro inaudível, a resposta que ela nunca chegou a proferir. Arrumo carinhosamente as mechas sobre sua fronte, deslizo minhas mãos pelo corpo ainda morno, que tanto prazer me proporcionara. Puxo sua saia para baixo, quero que ela tenha um pouco de dignidade na hora em que for encontrada nesse quarto de hotel vagabundo. Pareço calmo, mas por dentro estou arrasado. Por que tinha de ser tão egoísta, por que estragar tudo me colocando contra a parede, me ameaçando? Não éramos felizes, ao nosso modo?... Eu não suportaria um escândalo. Tenho esposa, filhos. E os meus amigos, o que iriam pensar de mim?... Não, foi melhor assim.
Olho para ela pela última vez. Como me dói ter que deixá-la desamparada, tão melancolicamente desprotegida, como um anjo triste que dorme o sono eterno.
- Por que você não nasceu mulher?...
Enxugo as lágrimas, abro a porta e saio sem olhar para trás.
Olho para ela pela última vez. Como me dói ter que deixá-la desamparada, tão melancolicamente desprotegida, como um anjo triste que dorme o sono eterno.
- Por que você não nasceu mulher?...
Enxugo as lágrimas, abro a porta e saio sem olhar para trás.
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